

Por nossa redação | São Luís, 3 de agosto de 2026
Sabe aquele tipo de gente que não passa pela vida a passeio? Que por onde anda deixa rastros de coragem, cheiro de arruda e conversa firme? Magno Cruz era exatamente assim. Hoje faz 16 anos que ele partiu pro Orun. Dezesseis anos sem o homem de Ogum, sem aquele sorrisão no meio do Centro de Cultura Negra (CCN-MA), sem o guerreiro de dreadlocks na cabeça e caderninho na mão anotando as dores e os sonhos do povo preto do Maranhão.
Mas olha só: se você acha que este texto é só para chorar saudade, pode mudar de ideia. Saudade para a gente é combustível. Mais do que lembrar a partida, o dia de hoje é sobre celebrar onde a presença dele germinou. E ela germinou inclusive em tijolo, concreto e teto próprio.
Se você andar por São Luís hoje, vai ver que a luta do movimento negro não tá guardada em livro de prateleira: ela tá na estrutura da cidade. Magno hoje é nome de Residencial com 400 casas, do mesmo jeito que a companheira Sílvia Cantanhede dá nome a outro conjunto habitacional.
E ao caminhar por lá, o mapa da comunidade vira uma aula viva de história: as ruas levam os nomes de Ivan, Escrete, Gerô, Luizão, Elisângela, Pai Euclides, Luzimar… Essa é a nossa gente fazendo a sua própria parte na história do Maranhão. Homenagear nossos passos nos nomes das nossas ruas é garantir que a futura geração saiba exatamente quem lutou para que ela tivesse onde morar.
A gente podia listar aqui o currículo dele: engenheiro civil, professor de matemática, fundador do sindicato dos urbanitários, presidente da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, homem de partido, ativista de rádio comunitária… Ufa! Mas o Magno era muito mais do que título no papel.
Magno era aquele cara que entendeu muito cedo que diploma na mão de preto é ferramenta de libertação comunitária. Ele usou a engenharia para pensar a terra dos quilombolas. Usou a matemática para multiplicar a força de quem não tinha voz. E usou a própria vida para dizer que cultura negra não é só folclore: é política, é territorialidade, é direito de existir em paz.
Gostava de um bom samba — Martinho da Vila, Dona Ivone Lara, Leci Brandão —, viajava pra Bahia pra trocar axé com o movimento negro de lá e não sossegava enquanto não visse a história do nosso povo contada pela nossa própria gente, virando até literatura de cordel sobre a Balaiada.
“Há 16 anos partia o ícone do movimento negro, Magno Cruz. O homem de Ogum, o amigo, a seriedade, a justiça. Ah! Saudade… Mas que bom que eu vivi com ele e muitos dos meus viveram com ele.” > — Gisele Padilha, companheira de luta
Quando a gente diz que Magno continua presente, não é força de expressão. É compromisso.
A presença dele tá em cada comunidade quilombola que garante seu território. Tá na juventude preta que pega o microfone e não pede licença pra falar. Tá na Medalha Magno Cruz, criada lá na Assembleia Legislativa pra homenagear quem não arreda o pé do combate ao racismo.
A pergunta que fica pra nós, hoje, no meio desse agosto de memória, é bem simples: como é que a gente tá honrando o caminho que o Magno abriu?
A resposta não tá nos livros acadêmicos difíceis. Tá no nosso cotidiano. Tá no afeto que a gente dedica aos nossos, na firmeza com que a gente encara as injustiças e na capacidade de lembrar que, como diz os companheiros e companheiras de luta no dia de hoje : “Lembranças são eternas. Valeu, cabeludo!”
Esta matéria, inclusive, nasce do encontro sincero dessas lembranças: das mensagens, dos abraços em forma de texto e das saudades compartilhadas pelas companheiras e companheiros do Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN-MA) neste 3 de agosto.
Magno Cruz plantou semente em solo fértil. A gente é o fruto. E enquanto houver racismo pra combater e povo preto pra acolher, Magno Cruz segue presente. Hoje, amanhã e sempre.