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Do Marajó ao poder: Zélia Amador, a mulher que não era “ajeitadinha” e virou pesadelo da casa-grande acadêmica

Por Redação CCN-MA 

 

Se você é mulher negra, pesquisadora, quilombola ou estudante neste país, conhece muito bem o roteiro da casa-grande acadêmica: toleram a nossa presença nas estatísticas de cotas, mas tentam calar a nossa voz, domesticar a nossa escrita e higienizar a nossa raiva ancestral. Exigem que a gente peça licença e agradeça pelo que, na verdade, é direito e reparação histórica.

 

Zélia Amador de Deus nunca pediu licença. Ela simplesmente entrava.

 

Nesta semana, aos 74 anos, em Belém do Pará, essa gigante fez a sua passagem após enfrentar com bravura o tratamento contra um câncer de mama. No mesmo dia de sua partida, a Assembleia Legislativa do Pará pautava o projeto para declarar sua obra Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado. Mas Zélia já era patrimônio cravado no corpo e na alma da Amazônia Negra muito antes de qualquer chancela institucional.

 

A dor atravessa a Baía de São Marcos e nos atinge em cheio aqui no Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN-MA). Porque nossa dor, nossa história e nosso território são um só: nós somos Amazônia.

 

“Meninas bonitinhas e ajeitadinhas”: quando o racismo deu o recado errado

 

Toda a caminhada de Zélia foi construída a partir da recusa ao lugar subalterno reservado para as mulheres negras.

 

Nascida em uma fazenda na Ilha do Marajó, era filha de uma trabalhadora doméstica que a teve aos 15 anos. Foi criada pelos avós em Belém: o avô, ex-vaqueiro que virou operário da construção civil; a avó, lavadeira de roupas. Ainda menina na escola primária, Zélia quis participar de uma dança festiva e ouviu da professora a justificativa da exclusão: só seriam escolhidas as alunas “mais bonitinhas e ajeitadinhas”.

 

Ela entendeu cedo a violência daquele código social. Voltou para casa desolada, mas recebeu da avó o ensinamento que virou bússola para a vida inteira: “Tu és preta, mas não baixa tua cabeça. Gosta de ti e ocupa os teus lugares.”

 

Zélia passou as décadas seguintes entrando exatamente nos espaços onde tentavam dizer que corpos como o dela não cabiam.

 

Do dicionário de inglês à radicalidade dos Panteras Negras

 

Na juventude, durante a ditadura militar, aproximou-se da resistência clandestina e ingressou na VAR-Palmares. O raciocínio da jovem militante era direto: se a organização carregava o nome de Palmares, ali debateriam a questão racial. Encontrou discursos focados estritamente em recortes de classe da esquerda tradicional, onde raça e gênero continuavam esperando do lado de fora. Desiludida com a cegueira racial dos partidos, traçou seu próprio rumo.

 

Em Belém, debruçou-se com um dicionário na mão para aprender inglês sozinha, movida pelo desejo de ler no original os discursos de Malcolm X e a articulação dos Panteras Negras nos Estados Unidos. Quando percebeu a ausência de tribuna na política convencional, encontrou o teatro. Fez da arte cênica uma arma contra o silenciamento, formou-se em Letras pela UFPA e, em 1978, retornou à instituição como professora. Em 1980, fundou o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa).

 

A agressão racista que virou vitória histórica na reitoria

 

A trajetória de Zélia incomodava as estruturas coloniais da universidade. Em 1992, quando disputou a Vice-Reitoria da UFPA, a chapa adversária organizou uma encenação no ginásio do campus para desqualificar sua chapa: enquanto o candidato a reitor (nordestino) foi caricaturado como cangaceiro, colocaram uma pessoa vestida de Cheeta — a macaca dos filmes de Tarzan — para representar Zélia Amador.

 

A violência do racismo institucional não a intimidou: Zélia venceu aquela eleição.

 

Entre 1993 e 1997, exerceu o cargo de Vice-Reitora da maior universidade pública da Amazônia, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar a função. Décadas depois, ao assumir o mesmo posto, o professor Gilmar Pereira da Silva destacou em discurso público que era apenas o segundo homem negro na função, sucedendo o pioneirismo absoluto de Zélia.

 

Sua luta foi determinante para a criação do Grupo de Estudos Afro-Amazônicos (GEAM) e para as cotas raciais, defendendo que, sem ações afirmativas, cursos como Medicina, Odontologia e Direito permaneceriam redutos sem presença negra e indígena.

 

O abraço da Amazônia Negra: Teias de solidariedade com as memórias e as pontes com o Maranhão

 

As lutas do Maranhão e do Pará sempre correram em paralelo, costurando os caminhos da Amazônia Negra. Quem bem dimensiona essa tecitura é Maria Raimunda de Araújo, a mestra Mundinha Araújo — fundadora histórica do CCN-MA, pioneira na pesquisa documental sobre a escravidão e a imprensa negra no Maranhão, liderança de referência nacional e uma das  articuladoras da Marcha Zumbi dos Palmares em 1995.

 

Ao resgatar os bastidores do movimento na virada dos anos 1970 para os 1980 — desde os primeiros encontros nacionais em Maceió (1980) e no Rio de Janeiro (1982), até a realização do histórico Encontro de Negros do Norte e Nordeste em São Luís (1983) —, Mundinha relembra com honestidade histórica o momento em que as caravanas começaram a cruzar as fronteiras entre Maranhão e Pará pela redemocratização:

 

“Eu fui conhecer a Zélia em 1984, quando foi uma delegação daqui do Maranhão para Belém para o comício das Diretas Já, e passamos lá pela casa dela, mas tudo muito rápido (…). Ela era bem mais nova do que eu. Eu tive muita convivência nos encontros nacionais com companheiras como Vanda Chacon, Inaldete de Pernambuco, Nestor do Amazonas, Irinéia de Alagoas e Sueli Carneiro.” — Mundinha Araújo, fundadora e liderança histórica do CCN-MA.

 

Consultando os arquivos históricos do próprio CCN-MA, Mundinha resgatou esse dado documental precioso: o registro formal da participação de Zélia Amador em São Luís durante o III Encontro de Negros do Norte e Nordeste, em 1983. Zélia integrou a delegação paraense de nove membros e atuou diretamente nos grupos de trabalho do encontro. No ano seguinte, em 1984, uma comitiva maranhense que viajou a Belém para o comício das Diretas Já fez uma rápida passagem pela residência da professora, reforçando os primeiros passos de uma articulação regional que transformaria o movimento negro amazônico.

 

O testemunho de Mundinha é aula viva: revela como mulheres negras com origens periféricas e compromisso comunitário construíram pontes reais entre Norte e Nordeste. Enquanto Mundinha e seus companheiros consolidavam o CCN-MA como polo de resistência contra o latifúndio e de resgate da memória ancestral maranhense, Zélia e o Cedenpa levantavam as barricadas da Amazônia paraense, unindo arte, academia e política de base.

 

Anos mais tarde, essa rede atenta às lutas do Maranhão seguia presente na prática de Zélia. Nas redes sociais, o professor e militante maranhense Silvio Bembem (Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e ativista próximo ao CCN-MA) resgatou a generosidade e a visão estratégica da mestra em um momento decisivo de sua própria formação:

 

“A querida Profa. Dra. Zélia Amador estava em minha banca de entrevista no ano de 2010, quando prestei seleção no Programa Internacional de Bolsas de Pós-Graduação da Fundação Ford. Muito inteligente, profissional, competente e humanista. Lembro de quando disse que era de São Luís do Maranhão, ela perguntou logo pelo guerreiro Dep. Domingos Dutra e pelo CCN-MA. Profa. Zélia Amador, presente!” — Prof. Dr. Silvio Bembem, em relato público 

 

A aranha Ananse e o baobá que não se curva

 

Zélia costumava evocar a narrativa mítica de Ananse, a aranha da tradição fante-ashanti que tece fios para conquistar e partilhar histórias. Para ela, esses fios representavam as redes de resistência diaspórica que permitiram à população negra sobreviver e registrar sua própria narrativa.

 

Em 18 de agosto de 2026, três semanas antes de sua partida, esteve no Campus Guamá da UFPA para o plantio de um baobá em sua homenagem. Na ocasião, afirmou emocionada: “Esse baobá representa muito para mim, porque fala de ancestralidade, de memória e daqueles que vieram antes de nós”.

 

A mensagem de Zélia permanece cristalina: mantenha a cabeça erguida, rejeite a tutela colonial e ocupe todos os espaços.

Professora Zélia Amador de Deus: presente, ontem, hoje e para sempre!

 

Fontes e referências bibliográficas:

G1 Pará: Zélia Amador de Deus, referência da luta antirracista na Amazônia, morre aos 74 anos no Pará* (Reportagem de 08/09/2026 sobre histórico, causa da morte, luto oficial e velório no Teatro Waldemar Henrique).

Universidade Federal do Pará (UFPA): Meninas e Mulheres na Ciência: Zélia Amador de Deus e a luta por uma universidade mais inclusiva* (Registros institucionais sobre vice-reitoria, GEAM, ADIS e carreira docente).

Fabrício Rocha:Zélia (Publicado em 09/09/2026, com relatos sobre o plantio do baobá, infância na escola, passagem pela VAR-Palmares e o episódio eleitoral de 1992 na UFPA).

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