

No território quilombola Cedro, em Santa Rita, a vida pulsa para além das violências que insistem em atravessar seu cotidiano.
Formado por gerações de famílias negras que construíram sua existência a partir da terra, do trabalho coletivo e dos laços comunitários, o Cedro é mais do que um espaço geográfico — é um território de memória, pertencimento e continuidade. Ali, plantar, criar, construir casa e compartilhar saberes não são apenas práticas cotidianas, mas formas de afirmar a própria existência.
Essa história, no entanto, vem sendo constantemente tensionada.
Há mais de uma década, a comunidade enfrenta ameaças recorrentes, conflitos territoriais e episódios de violência que atingem diretamente o direito de viver no próprio chão. Relatos reunidos em estudos e escutas com moradores mostram um histórico de derrubadas de casas, destruição de plantações, intimidações e ações marcadas pela presença de forças policiais, muitas vezes sem respaldo legal.
Essas violências não são apenas materiais. Elas deixam marcas profundas na vida das pessoas.
Moradores relatam o impacto direto na saúde, no bem-estar e na tranquilidade da comunidade. A pressão constante, o medo e a insegurança transformam o cotidiano, afetando inclusive a saúde física e emocional de quem resiste no território.
Nos últimos meses, a situação se agravou ainda mais com denúncias de possível contaminação das fontes de água utilizadas pelas famílias. A água, elemento essencial para a vida, o cultivo e a permanência no território, passa a ser também fonte de preocupação, colocando em risco a saúde e a segurança alimentar da comunidade.
Mais do que episódios isolados, o que se observa é a repetição de um padrão que atinge, historicamente, comunidades negras e quilombolas em todo o país.
Quando o acesso à terra é negado, quando o ambiente é degradado e quando a proteção do Estado falha, estamos diante do que se compreende como racismo ambiental — um processo em que os impactos da violência e da degradação recaem de forma desproporcional sobre populações historicamente vulnerabilizadas.
Mas o Cedro não é definido apenas por esse cenário.
A comunidade segue viva, organizada e em movimento. Ao longo dos anos, construiu formas próprias de resistência: associações comunitárias, articulações com organizações de direitos humanos, produção de documentos e registros que afirmam sua história e fortalecem sua luta por reconhecimento.
Mais do que resistir, o Cedro cria.
Cria modos de viver baseados na solidariedade, no cuidado coletivo e na relação profunda com a terra. Mantém saberes que atravessam gerações, práticas de cultivo, modos de construir, histórias contadas de boca em boca e uma memória que não se deixa apagar.
O território, nesse sentido, não é apenas espaço de disputa — é também espaço de vida.
E é justamente por isso que a permanência da comunidade não pode depender apenas da resistência cotidiana.
A garantia do território, o acesso à água segura e a proteção das famílias quilombolas são direitos. E garantir esses direitos é responsabilidade do Estado.
Diante da gravidade das denúncias, especialmente relacionadas à possível contaminação da água, é urgente a apuração dos fatos e a adoção de medidas concretas de proteção à comunidade.
Porque no Quilombo Cedro não está em jogo apenas a terra.
Está em jogo a continuidade de uma história.
De um povo.
De um modo de existir.